COLETÂNEA DE CONTOS
ENSINA-ME A MORRER
Todos os direitos reservados. Vedada à produção, distribuição, comercialização ou cessão sem autorização do autor e a citação de fonte e autoria do texto. Os Leitores poderão imprimir as paginas para a leitura pessoal. Os direitos dessa obra não foram cedidos. (Oliveira, Ronaldo Soares)
Título: Ensina-me a Morrer - Coletânea de Contos
Autor e Imagens escolhidas por Ronaldo Soares de Oliveira
Autor e Imagens escolhidas por Ronaldo Soares de Oliveira
Diagramação: Honório Vieira
Local: Alvorada/ RS/Brasil
Participantes da capa: Flávio Moura e Roberta Diniz
Capa: Flávio Moura
Capa: Flávio Moura
Contatos com o Autor: telleronaldo@gmail.com
Telefone para contato: (51) 9-8474-0903
Telefone para contato: (51) 9-8474-0903
Breve Biografia
RONALDO SOARES DE OLIVEIRA, gaúcho - jornalista profissional (registro12.151/51/2-RJ) e blogueiro estudou na Faculdade de Comunicação da PUC-RJ. Foi repórter nos seguintes jornais: "Jornal dos Sports - RJ"; "Última Hora - RJ"; "Tribuna da Imprensa - RJ"; "Jornal de Hoje (Nova Iguaçu-RJ)" e no jornal-escola “O Sol”. E ainda no Rio de Janeiro, com um grupo de idealistas fundou o jornal nanico "Boca da Noite", cuja boca carecia de publicidade e faliu. Em Alvorada/RS, escreveu matérias para o "Jornal de Alvorada" (do editor Laudir), uma das quais criticou, severamente, os "bispos" pentecostais por estelionato e manipulação de centenas de crentes. Criou, ainda, o alternativo "Balconet", que também faleceu por inanição publicitária. E, nos anos 90, quando a internet era quase desconhecida e o celular um objeto de luxo, inventou o TELERECADO com o auxílio de dois orelhões da CRT, um "pager" da Mobi, uma máquina de escrever Olivetti e três garotos que, de bicicleta, entregaram milhares de mensagens ao longo de 3 anos. Aí o celular chegou com força e a aventura acabou. Colabora no "Portal do Jardim Algarve" escrevendo a coluna "Crônica do TeleRonaldo", sobressaindo-se a matéria "Mulher, a Redenção Fora do Paraíso" francamente feminista. Mantém o blog CUSPINDO NA CHUVA.BLOGSPOT.COM.BR e o e-mail TELLERONALDO@GMAIL.COM - Celular (51) 8474-0903 / RS
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AGRADECIMENTOS ................................................................................................. 6
E-MAILS AOS VENTO................................................................................................7
A ESPERA.................................................................................................................. 12
O ÚLTIMO ORELHÃO.............................................................................................. 10
ENSINA-ME A MORRER ......................................................................................... 14
VIAGEM NO TEMPO PARA ENCONTRAR CABRAL .......................................... 19
DIVINA PROSTITUTA .............................................................................................. 21
OS PONTEIROS ..................................................................................................... . 24
AS MENINAS DE CABELOS VERDES .................................................................... 25
A LONGA NOITE DOS MENDIGOS ........................................................................ 27
UM HOMEM SÓ, DOIS TERNOS E DUAS CAMISAS IMPECÁVEIS ................... 29
SULCOS & RUGAS..................................................................................................... 31
A VIDA NÃO TEM FUTURO..................................................................................... 33
UM MORTO PRECAVIDO, MAS NEM TANTO ... ................................................... 35
FRANJINHA ............................................................................................................. 37
UM OLHAR PROFUNDO ZELANDO PELO PLANETA ........................................... 39
PALAVRAS.......................................................................................................................40
O TODO PODEROSO É UM GENOCIDA..................................................................... 42
AGRADECIMENTOS
A Coletânea de Contos DIVINA PROSTITUTA foi concebida rapidamente - muito rapidamente - como costumo pensar/escrever; mas não poderia deixar de expressar um comovido agradecimento à pessoas mais que especiais: os craques em informática Flávio Moura (que iniciou) e Honório Vieira que formataram a coletânea com admirável prazer; à especial amiga Ariel Martins que, em algumas madrugadas, semeou importantes opiniões e à jovem médica urologista Luciana que vi uma única vez, na Santa Casa de Porto Alegre, e que me emocionou pela extrema delicadeza havida numa consulta. Não é por acaso que a obstinada e delicada personagem Luciana, do conto "O Último Orelhão", tem o seu nome. Lamentavelmente, depois daquele atendimento, nunca mais a encontrei. À companheira Maria Amélia Chaves e Família, com incentivos inestimáveis, e em especial a filha Líbera Oliveira Chaves que leu releu as narrativas com incansável esforço. Os críticos de cinema Goida e Enéas de Souza, pela franqueza e especialmente o segundo que indicou-me o raríssimo caminho das editoras. Ah, uma menção especial para a visionária e íncentivadora Cláudia-Mata que conheço apenas virtualmente mas desejo abraçá-la pessoalmesnte. E à gata Nêga-Parker, minha fofa gatinha que se esparrama no teclado do computador enquanto escrevo...
SINOPSE
OS DESERDADOS DA SORTE
A Coletânea "Ensina-me a Morrer" é uma deliciosa e surpreendente coletânea de contos que espero agradar
a todos os gostos; nem todos, é claro... De maneira ágil, permitindo que o leitor saboreie o desfecho de cada parágrafo sem mistério ou complicações, mas com indescritível prazer. A leitura flui como a calmaria de um sereno riacho para, de repente, transformar-se numa caudalosa correnteza sem machucar as margens do seu raciocínio. Esses 20 contos permanecerão na memória afetiva do leitor e o farão refletir sobre a condição humana. Principalmente dos deserdados da sorte. Grato! Ronaldo S. Oliveira.
DIVINA PROSTITUTA conto registrado por Ronaldo Soares de Oliveira
Já agora, nua, Ana Clara ergue uma das pernas do seu "cliente" (entre aspas por que ela não gosta da palavra "cliente"). Ana Clara prefere a palavra irmãozinho. E é assim que ela trata os seus muitos irmãozinhos. Ela aceita uma oferta mínima pelos seus serviços, quase uma esmola; e se a família não tem recursos, Clarinha - como todos a tratam - nada cobra.
Persegue os passos de São Francisco de Assis, como devota e praticante. Só que, ao invés de repartir o pão, Clarinha reparte o seu corpo. A igreja Católica ao saber disso, passou-lhe uma reprimenda pública divulgando no jornal a "imoralidade dos atos", no que foi seguida pelos pastores evangélicos…
Ao que Clarinha deu de ombros justificando o que faz como uma obra da mais alta humanidade... E se Deus existe - afirma - estou mais perto dele que estes religiosos hipócritas. E ergue a perna inerte do seu irmãozinho praticando-lhe um delicioso boquete, seguido de uma estimulante penetração. O que ela consegue cavalgando o parceiro com comovente habilidade... Após alguns minutos de santificada paciência, o irmãozinho geme de tesão e ejacula.
Clarinha não abandona a cama rapidamente como uma profissional convencional. Ela passa as mãos com suavidade sobre o corpo do parceiro, beija-o pelo rosto, relaxando-o... Só então dá por encerrada a sua missão.
Despede-se e vai ao encontro do familiar do irmãozinho, quando recebe módica compensação; e segue a sua inusitada rotina. Mas há uma conspiração em andamento contra Clarinha. Pastores influentes que dominam - e muito - as consciências das pessoas da pequena cidade do interior determinam uma virada na vida de Clara. Após os cultos, os pastores se deslocam em procissão até à frente da casa dela e passam a hostilizá-la: "Acabem com a Messalina!"; "Basta de Imoralidade!”; "Esta Mulher Ofende a Deus!"; "As Famílias que Recebem os Serviços de Clara são Impuras!" E o cartaz mais agressivo dizia: "Pro Inferno os Aleijados de Clara!" Só faltava jogá-la numa fogueira. Se bem que alguns fundamentalistas bem que gostariam... Sua casa foi apedrejada e sua saída à rua era um tormento.
Para a tristeza dos seus irmãozinhos, Clarinha teve que parar suas atividades. Eles entraram em depressão e muitas famílias ousaram levá-los, furtivamente, a lugares insuspeitos ao encontro de Clara... Mas também não durou muito. Foram descobertos e a punição foi bárbara: os doentes foram impedidos de sair de casa e Clarinha embarcada, à força, num trem de destino ignorado. A cidadezinha, para a alegria dos pastores, ficou em aparente paz. Os comentários cessaram e os paralíticos, estigmatizados, ficaram trancados em casa…
Passaram-se 4 anos e, súbito, um terremoto devastou a cidade, aleijando parte dos moradores. Penosamente tentavam reconstruir suas casas. O que mais se via nas ruas eram pessoas em cadeiras de rodas. Entre os voluntários que desciam do trem lotado de socorristas e material de sobrevivência, uma figura conhecida: Clarinha pronta para ajudar. De óculos escuros, ninguém a reconheceu.
Enfermeira de recente formação, Clara não descansava. Mas sabe-se lá como, alguns dos antigos irmãozinhos a reconheceram. E a notícia se propagou. E os tetraplégicos, paraplégicos e feridos terminais reuniram-se no que restou de um templo e decidiram: "vamos chamar Clarinha para diminuir as nossas dores!"
E a aclamaram como Santa Clara dos Desvalidos! E muitos irmãozinhos pediam, discretamente, que...
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A ESPERA conto autobiográfico registrado por Ronaldo Soares de Oliveira
Eles estavam a menos de seis metros de distância um do outro, num terminal de ônibus. Ambos de capuz, tremendo de frio; ela mal conseguiu vislumbrar o rosto que lhe solicitou as horas. O ônibus dela já ia dar partida quando ele suplicou para o motorista que lhe desse apenas dez segundos, tempo necessário para debruçar-se sobre a roleta e jogar um bilhetinho para ela.
Agradeceu ao motorista e acenou para janelinha onde ela estava. Cabeça descoberta, cabelos longos despreocupadamente despenteados, ela acenou alegremente; mostrando um par de olhos verdes seguidos de um sorriso alvo e tímido.
Com essa perda de tempo ele perdeu o ônibus, mas não se arrependeu. O seu bilhetinho dizia, em letras apressadas: "Menina encapuzada de alegre sorriso - ele se encantara com o sorriso que vira - ficaria feliz em corresponder-me contigo. Só tenho e-mail. Nada de importante tenho a revelar, por isso não tenho Facebook. Envie o seu e-mail e vamos ser amigos! Boa viagem e desejo-te os mais lindos sonhos!" Debaixo rabiscou o e-mail.
Ela, curiosa, ansiava chegar em casa para digitar algumas palavras para aquele misterioso rapaz. Não tão rapaz assim. Ele tinha cabelos grisalhos e a mesma idade de Richard Gere, 53 anos. Mas estava longe, muito longe do charme do famoso ator. Era professor e se aposentara precocemente por conta de um AVC que o deixara levemente manco. Levemente. Usava discreta bengala de aparentes
pequenos nós de madeira; igual àquelas que os exploradores ingleses apareciam nos filmes...
Ela escreveu no seu e-mail: "Oi! meu nome é Leirá, tenho 23 anos, curso Engenharia e adoro ler e curtir música. Você me encontrou num momento difícil. Passo por uma dor quase insuportável; perdi minha cadelinha vitimada pelo câncer e estou em dúvida sobre o meu namorado... que é um tanto sufocante”. E você? Fala- me um pouco de ti.
O e-mail de Odlanor não demorou, com informações básicas, mas sinceras. Ele pedia o celular dela, acrescentando que não era sufocante e aceitaria ser apenas um amigo cordial, ressaltando a diferença de idades. Adorava o bom cinema, na telona e na telinha, e também a Fórmula 1 quando havia brasileiro correndo. Contou que a sua fantasia era idealizar uma "máquina do tempo", tal era o seu temor pela velhice. Acrescentou que amava a Música Popular Brasileira. Especialmente Paulinho da Viola; o incrível Raul Seixas; Caetano; Gil; Bethânea; Elis; o falecido Reginaldo Rossi (observa que "Mesa de Bar" é um hino); Martinho da Vila; o maravilhoso Bezerra da Silva (e seu espirituoso "Sequestraram a minha Sogra"); o genial Milton Nascimento e o inigualável Chico Buarque com a sua trágica “Construção”, “Mulheres de Atenas” e “Cálice”, entre tantas obras-primas...
Mas a exemplo de Leirá, que já havia confidenciado sua admiração pelo Rock, Odlanor demonstra o seu gosto pelo Jazz e, consequentemente, pelo Rock. Não se esquecendo de mencionar Chuck Berry (um dos pais do formidável rítmo); Little Richards; as inesquecíveis Mamma (lésbica assumida "naquele tempo", que elevou o Jazz às alturas); a inigualável Billy Holliday; Ela Fitzgerald; o genial e falecido B. B. King; Rick Valley (o portorriquenho que compôs "La Bamba", outro hino); e, finalmente, ressalta o "genealíssimo branco" Elvis Presley. E solta uma frase de efeito, talvez para impressionar: Elvis vive!
Como Leirá talvez tenha observado, Odlanor era "antigo" pelas suas preferências. Se bem que ele salientava que a música boa não tinha idade. Leirá negou o celular, por enquanto o e-mail bastava - disse. “Realmente, gosto das mesmas coisas que você, especialmente escrever. E observei a sua discreta e elegante bengala. Diferente daquelas chamativas de metal. Um charme! Onde a conseguiu? Foi num filme? Quanto a estar longe da figura do Richard Gere, é muita
humildade sua. O cabelo branco e farto como o dele já é uma semelhança... Não para levar-te à Hollywood, é claro (he, he, he)”, sentenciou brincando.
Noite-sim-noite-não o papo virtual continuava sem a mínima insinuação de um reencontro... O papo virou hábito, sempre de madrugada, até o galo cantar. Um dia ela deu uma dica: estaria apreciando a Parada Gay, domingo, no Parque Farroupilha. Ele foi e com alguma dificuldade avistou-a com aquele encantador cabelo desajeitado e longo. Mas não ousou aproximar-se, temendo a rejeição. À noite, pelo e-mail habitual, ela perguntou o que tinha havido? Ele respondeu que simplesmente não a encontrou devido à multidão.
E seguiram trocando e-mails revelando identidades e diferenças que os ligava. Consumiram-se seis meses. Ele viajaria por um longo período e, com medo de uma relutância, fez mil rodeios para, finalmente, pedir que no dia da sua partida ela comparecesse, às 10 horas, na Esquina Democrática, centro de Porto Alegre. Ele estaria lá para se despedir.
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O vilarejo estava situado nos cafundós da Amazônia. Luz elétrica não existia e celular não alcançava a região. Ou melhor, havia um orelhão ali plantado há mais de 10 anos, funcionando sem a necessidade de fichas... Mas ninguém o usava, pois não havia para quem ligar. E o aparelho era cuidado como uma relíquia, pois não tinha quem lhe fizesse manutenção; e aparentemente estava esquecido de qualquer empresa de telecomunicações, talvez por considerarem algo obsoleto ou por piedade daquela gente tão miserável.
Até que um dia formandos de uma faculdade de medicina e de odontologia lá chegaram na condição de voluntários. Deveriam ficar por duas semanas, mas lá permaneceram seis meses tal era a necessidade de saúde, especialmente bucal. Reduziram a mortalidade infantil, ensinaram métodos de higiene e alimentação saudável com a construção de hortas que entusiasmou a todos...
Luciana, que era urologista, ensinava hábitos até então desconhecidos pela comunidade. Promovia aulas de sexologia desmitificando tabus como a virgindade. Suas aulas eram frequentadíssimas e ela conseguiu atrair os homens, sempre arredios. Como única ligação com a civilização, o orelhão era concorridíssimo. Os voluntários faziam fila para comunicar o adiamento de sua permanência aos familiares e à universidade. Mas se queixavam de que o aparelho estava a cada dia mais fraco, quase inaudível...
Quem mais entendia do orelhão era Pedro, um homem simpático de meia idade, de poucas palavras e personalidade impenetrável. Suas únicas palavras, sempre, eram sim e não; não importando a pergunta. Era contraditório. Se lhe perguntassem se o aparelho estava bom, ele poderia dizer que sim e, no minuto seguinte, responder que não... Pedro morava só, distanciado dos demais, fazia a
sua própria comida e, surpreendentemente, sabia ler e escrever. Acredita-se que tenha aprendido, há uns 20 anos, com um explorador inglês que também deixou-lhe de presente “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin, único livro que Pedro lia e relia com obsessão.
Luciana, a urologista, soube da história de Pedro e resolveu procurá-lo, apesar dos senões de toda a comunidade. Ainda assim ela foi. A porta da choupana não se abriu mesmo com as muitas batidas desferidas pela médica. Luciana fingiu que desistira e a uma certa distância, por detrás de uma árvore, observou que o solitário Pedro a vigiava por uma fresta da janela. Ela deu meia volta e rumou resoluta, em direção à choupana. Bateu, bateu, bateu e nada... Então, sabedora da história do livro único, pôs em execução uma ideia: começou a emitir conceitos sobre o livro "A Origens da Espécie" que, surpreso, Pedro respondeu enriquecendo os tais conceitos. Para, em seguida, abrir a estreita janela para ouvir e se fazer ouvido...
Luciana pediu que ele abrisse a porta para que pudessem conversar melhor. Ele pensou, pensou; demorou uns cinco minutos e, com reservas, abriu a portinhola. Não havia onde Luciana pudesse sentar e ela puxou conversa assim mesmo. Hesitando em responder, ele disse que só falaria sobre o livro ou, então, que ela fosse embora! Ela concordou, mas perguntou se ele gostaria de ler outros livros? A resposta foi um sonoro não; repetindo que aquele seria o único livro da sua vida. E, assim, passaram mais de três horas lembrando passagens do livro... Pedro dava uma aula sobre a "Origem das Espécies", afinal ele conhecia o livro de Darwin de cor.
Quando Luciana insistiu que era interessante ele tomar conhecimento de outras obras, aproveitando a sua inteligência, ele se irritou e mandou-a embora. Ela perguntou se poderia voltar no dia seguinte? A resposta ficou atrás da porta fechada. Mas foi um progresso. Ela conseguira quebrar o gelo daquele homem solitário. A comunidade e os colegas de Luciana quase não acreditaram. No dia seguinte, sabedora dos hábitos de Pedro, ela foi procurá-lo. Ele acordava às 5 horas, um pouco antes do sol nascer, tomava um banho de rio e preparava seu próprio café, ou melhor, chá, que consistia de 2 bananas, 1 laranja, 1 naco de coco e uma caneca de chá...
Luciana o surpreendeu quando ele ainda não terminara o desjejum numa mesa improvisada. Antes que Pedro reprovasse a sua visita, ela se adiantou e perguntou de um fôlego só: "E o que foi feito do Beagle, o valente navio de Darwin?" A pergunta o embaraçou ficando sem resposta. Luciana, então, com muito tato observou: "É pra isso que servem outros livros..." E o que aconteceu com o navio? - pergunta Pedro cheio de curiosidade. Ela conta o destino do navio reafirmando a utilidade da leitura. Pedro lamenta não ter outra cadeira e oferece a sua. Luciana agradece e diz esperar que ele terminasse o chá. Depois, sem que Pedro se dê conta, eles já estão falando de outros assuntos... E, animadamente, ela convence- o, já sem muita persuasão, a conhecer os seus colegas.
Um dos voluntários, que é psicólogo, surpreende-se com a inteligência de Pedro, considerando-o nada menos que um superdotado. Todos os voluntários trouxeram, além dos livros técnicos, boa literatura nacional e estrangeira. E de bom grado presentearam Pedro com muitos livros, que ele foi devorando com um apetite invulgar. Sempre a seu lado, Luciana foi dirimindo as dúvidas que surgiam... E, às vezes, Pedro inventava dúvidas só para ficar ao lado dela. Faltavam apenas três dias para os voluntários retornarem. E Luciana comunicou a Pedro, prometendo enviar-lhe outros livros. Ele lamentou a decisão e pediu que ela ficasse, o que seria impossível - ela disse -, argumentando que tinha inúmeros compromissos em sua cidade. Além, é claro, dos relatórios que a universidade esperava.
Duas lágrimas discretas verteram dos olhos de Pedro e outras foram escondidas de Luciana por seus rápidos passos em direção à mata... E lá ficou, sem voltar para choupana. Luciana o procurou, em vão. Finalmente, depois de uma triste reunião de despedida, em que aquela pobre comunidade do fim-do-mundo demonstrou todo o seu agradecimento aos voluntários, eles embarcaram na lancha que os levaria ao continente.
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E-MAILS AO VENTO
conto registrado por Ronaldo Soares de Oliveira
Paraplégico, 42 anos, imobilizado da cintura para baixo. Não bebia nem fumava e fazia exercícios todas as manhãs. Exercício improvisado, mas pra valer. Erguia pesos acima do tronco inúmeras vezes, o que lhe proporcionava um físico definido. Sua aparência era de um cara de 30 anos e a voz quase inaudível resultava de não ter com quem falar, a não ser sua tia, com quem morava, mulher de poucas palavras e cara amarrada.
1º DIA
Querida Áurea, descobri o teu nome e o teu e-mail no face book, sem fotos ou qualquer descrição física. Acho isto bom. O que interessa é o íntimo das pessoas. Também nada falarei da minha aparência, embora não seja um monstro. Apenas vamos conversar. Com afeto, o amigo Otávio.
- Otávio, pra mim está ótimo. Vamos conhecer o nosso íntimo, "disse Áurea." Há um ano não tenho namorado, pois o único que tive foi assassinado num assalto; e desde então sou menos que um fragmento do tempo em que era feliz. E você, fale-me da sua vida?
- Pouco ou nada tenho a dizer de mim. Me constranjo, mas admito que sou virgem, não por motivos religiosos, não fui padre; e até considero um absurdo impor tal condição aos padres. Será que o Criador, se é que houve um Criador, concordaria com esse celibato obrigatório? Então por que Ele colocou o sexo no homem, cheio de apetites? Não vejo necessidade em ter religião. Mudemos de assunto, querida Áurea, até porque eu sou a pessoa menos indicada para falar disso. E tu não pensas em um novo romance?
- As cicatrizes ainda não se fecharam, caro Otávio. Me concentro no meu trabalho de atendente num hospital e no curso de enfermagem que em breve concluirei. No mais, é um cineminha caseiro na tv ou no youtube; aliás, te dou uma dica: assiste no face um filme maravilhoso que vi 4 vezes: "As Mulheres do 6º Andar". É um drama-comédia, mais drama que comédia, tem até uma pitadinha de luta de classes. A trilha sonora, de uma leveza incrível, é absolutamente envolvente. É a história, de mulheres pobres espanholas que emigram para a França para ter uma vida melhor como domésticas; tem situações e diálogos impensáveis.
O patrão de uma delas, um burguezão conservador, vai repensando o seu conservadorismo estimulado pela postura de Maria, a única das empregadas que fala francês. Ele tem uma esposa completamente fútil, que só pensa em compras e festas e acaba se apaixonando por Maria. Ao separar-se da mulher, sai de casa e vai morar num quartinho vago do 6º andar. Quando os dois filhos vão "exigir" que ele volte para o apartamento da família, ele simplesmente fala que nunca foi tão feliz como naquele pequeno espaço. Não vou contar todo o filme, mas a cena em que o patrão convida Maria para viverem na Espanha, é impagável. Ele diz que trabalhará como pedreiro ou carpinteiro, ao que Maria o interrompe dizendo: "com essas mãos lisinhas, sem calos...?" É imperdível, querido Otávio! Você gosta de cinema?
(Visivelmente feliz pelo querido dito por Áurea) responde: vou assistir hoje mesmo "As Mulheres do 6º Andar" mas, antes mesmo, estou emocionado com o teu entusiasmo. Também adoro cinema. Ela interrompe Otávio e afirma: - taí uma bela identificação entre nós. Não sei de você, mas eu prefiro ver filmes na tela grande do cinema. É completamente envolvente. Desconversando, Otávio pensa na sua condição de cadeirante e balbucia apenas: - Acho que sim, acho que sim...
Ainda falando sobre cinema, Áurea lamenta quando a sessão acaba e o cinema é iluminado. "Sinto que enfiei o pé na realidade e, se o fiscal não pedir pra sair, fico para a outra sessão."
2º DIA
- Bom dia, Áurea! Que tipo de preconceitos você tem? - Como assim? ela pergunta surpresa. Nada, nada, desconversa Otávio. - A propósito, como foi a sua infância ? - Nada feliz.Tornei-me órfão de mãe aos 8 anos. Ela tinha traços muito delicados e possuia uma franjinha encantadora; é o que me lembro. Meu pai disse que ia viajar por uns dias, deixou-me com a minha avó, e sumiu para sempre. A minha avó, viúva e pensionista de um salário mínimo e meio, enfrentava severas dificuldades mas possibilitou-me concluir o 2º grau. Ainda menor de idade trabalhei como doméstica em duas casas e na segunda fui violentada pelo filho do patrão. Cidade do interior, longe de tudo, o rapaz também era menor e tudo ficou por isso mesmo. Consegui emprego no comércio e tive um namorado por quem me apaixonei. Mas não durou muito. Ele sofreu um assalto, já te falei, foi baleado e morreu.
Você nunca teve namorada, Otávio?
Uma falta de energia providencial evitou-lhe a resposta.
À TARDE DO MESMO DIA
- Oi, Áurea! Conheces aquele ditado que fala da dificuldade de fazer retornar o excesso de pasta de dente para o tubo? Pois bem, agora após o almoço o excesso foi grande. Deixei cair o tubo e a minha tia pisou em cima. E ela é bem gorda; imagina o prejuízo. Era o único tubo que havia em casa...
Não, não é possível tamanha coincidência, observou Áurea, "o meu tubo acaba de cair no vaso sanitário. A sorte é que eu tinha dois estocados. Nunca mais vou deixar o vaso aberto. Somos feitos de coincidências, meu querido. Precisamos nos conhecer. Otávio emudeceu.
- Áurea, tenho uma gatinha, a Preta, que é uma fofura. Sempre que uso o computador, ela se esparrama em volta do teclado e até dá "enter" com o rabinho. Tens algum bichinho de estimação? - Tenho um cachorrinho vira-lata que adora uma galinha que apareceu aqui no quintal. Ele é muito novinho e está crescendo na companhia dela. Dormem juntinhos. - Ah, então você mora numa casa. Isto é ótimo. Eu vivo confinado num apartamento térreo.
NOVO CONTATO, JÁ À NOITE
E o Carnaval de 2016, Otávio, como foi? - pergunta Áurea. "Assisti o maravilhoso desfile das Escolas de Samba do Rio. Foi algo deslumbrante, incrivelmente inventivo."
- Também achei, disse Áurea. Antes que ela completasse o pensamento, Otávio lembra, criticamente, uma cena marcante: - Uma das madrinhas de bateria da Escola de Samba Peruche, de São Paulo, foi brutalmente empurrada e chutada para fora da pista porque tentou tirar a roupa como protesto. Só teve tempo de mostrar os seios nus. Logo os seguranças da escola a agarraram e a chutaram para fora da pista. De salto alto, a pobre jovem desequilibrou-se e caiu. Por que esta hipocrisia num desfile em que grande parte das mulheres sambam seminuas, querida Áurea?
Depois se soube pela imprensa que ela desejava colocar a frase Fora Dilma! na frente do tapa-sexo. E digo mais, salienta Áurea, "quem desconfia fica sábio; por isso penso que a moça queria produzir um efeito muito acima da nudez ou sexo; o que a 'zelosa' escola de samba não podia permitir... Num bloco essa irreverência seria possível, pois os blocos não estão amarrados a 'compromissos' com o governo. Já as escolas mamam nas tetas do poder."
Otávio vibra com a observação de Áurea: "Como estamos identificados! Pelos comentários nas redes sociais verifiquei que muita gente não entendeu a atitude da moça..."Mas me diga uma coisa, Áurea, de onde você tirou esta bela frase 'quem desconfia fica sábio'?" Deixa pra lá - ela responde orgulhosa - "foi de algum livro..."
Otávio retoma o assunto: "Houve outra exceção. A Escola de Samba Mocidade de Padre Miguel desfilou com o enredo "O Brasil de la Mancha, sou Padre Miguel" criticando asperamente a corrupção. Foi um embate literário entre Dom Quixote e os corruptos. E o mais audacioso: a escola mostrou uma carroça cheia de corruptos, sem citar nomes, que por um ótimo artifício todos estavam invisíveis; mas identificavam, claramente, dois personagens pelas roupas: um terninho vermelho personificando claramente Dilma e uma luva preta, faltando um dedo, indicava Lula. Mas ainda é pouco protesto para mais de 20 escolas desfilando nos sambódromos do Rio/São Paulo", arremata.
Outro detalhe, ressalta Áurea: "os negros, fundadores do samba, estão sumindo. As madrinhas de bateria, com raríssimas exceções, são brancas famosas que só aparecem nas comunidades durante o Carnaval. A presença negra ainda se impõem na bateria, porta-bandeiras e mestres-salas. Não se trata de um sentimento racista; é só uma constatação..."
3º DIA
Otávio salienta que já falaram de cinema, carnaval, corrupção. Quase nada sobre romance. Então faz a pergunta presa na garganta: "Quando poderemos nos encontrar, Áurea? - Um grande silêncio. "Moro em outra cidade, bem longe, Otávio. Mas vamos marcar um dia, tá?" Otávio se apressa e combina o dia: "Sábado que vem vou te esperar na rodoviária," com o que Áurea concorda...
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O TODO PODEROSO
É UM GENOCIDA
conto registrado por Ronaldo S. Oliveira
Era convictamente um cara sem fé. Decididamente sem fé. Mas sábado à tarde um sorriso iluminou a sua alma. Aliás, nem em alma ele acreditava. Achava o Senhor injusto e nada misericordioso: e lembrava uma passagem da Bíblia em que o Senhor condenava Eva e Adão pelo pecadinho de haverem comido o fruto proibido. Mas pera lá, se o Senhor é onisciente (sabe de tudo...) por que armar a armadilha do fruto proibido? Sentença nada bondosa, para um Deus de luz, que determinou para os homens "comerem o pão com o suor do seu rosto" e as mulheres, para sempre, "terem filhos com dor". Sentenças malévolas, indignas do "amadíssimo Criador".
O que, ironicamente, não se cumpriu, pois as mulheres, hoje, graças à Medicina, via analgésicos, têm parto sem dor. E somente os trabalhadores "comem o pão com o suor do rosto", pois outros homens, os ricos, comem o pão (e o caviar) com o suor dos trabalhadores... Logo, a condenação do Senhor não se cumpriu.
'Se existe um Deus, ele terá que implorar pelo meu perdão.'' Frase encontrada na parede da cela de um prisioneiro judeu num campo de concentração.
Ele ia mais longe: todas as guerras do Velho Testamento e o famoso "olho por olho; dente por dente" poderiam ser substituídos por um ato de ternura do Senhor que, se quisesse, simplesmente poderia banir toda a violência da face da Terra. E os banhos de sangue acabariam... Nem haveria necessidade de "livre arbítrio", pois as escolhas do Senhor seriam de plena bondade até os nossos dias! E, assim, a sentença seria transformada em "bondade por bondade em dobro"... A propósito, Ele
instituiu o "livre arbítrio", mas exterminava quem o desobedessece, segundo muitas narrativas do Velho Testamento...Ele ia mais longe: todas as guerras do Velho Testamento e o famoso "olho por olho; dente por dente" poderiam ser substituídos por um ato de ternura do Senhor que, se quisesse, simplesmente poderia banir toda a violência da face da Terra. E os banhos de sangue acabariam... Nem haveria necessidade de "livre arbítrio", pois as escolhas do Senhor seriam de plena bondade até os nossos dias! E, assim, a sentença seria transformada em "bondade por bondade em dobro"... A propósito, Ele instituiu o "livre arbítrio", mas exterminava quem o desobedessece segundo muitas narrativas do Velho Testamento...
ARCA DE NOÉ: UM GENOCÍDIO PREMEDITADO
É o caso, se considerarmos verídica a fantasiosa construção da Arca de Noé! Imagine construir, por mais imensa que seja, uma arca que receba todos os animais da Terra? Pelas mãos de 8 membros da família de Noé (ele, a esposa, os 3 filhos e suas esposas; além de 78 pessoas "tementes à ira de Jeovah"!... A embarcação - segundo a Bíblia - media 137 metros de comprimento; 23 metros de largura e 14 metros de altura. Convenhamos, tais medidas seriam suficientes para abrigar 86 pessoas
e todos os animais da Terra, contando com os marítimos? É pura fantasia... mas que serve para
manipular os crentes.
Ah, e não consta que Noé tenha enfiado um dinossauro lá dentro... Até pela impossível convivência e
e todos os animais da Terra, contando com os marítimos? É pura fantasia... mas que serve para
manipular os crentes.
Ah, e não consta que Noé tenha enfiado um dinossauro lá dentro... Até pela impossível convivência e
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ENSINA-ME A MORRER
conto registrado por Ronaldo Soares de Oliveira
Entreolharam-se e surpreenderam-se por desenvolver o mesmo passatempo... Mas vejamos a história deles. Saffira era o seu nome (com dois efes, ela insistia), tinha 27 anos e saíra de um relacionamento com um fim trágico. Ricardo, 54 anos, teve um matrimônio conturbado que não passou dos 4 anos. Foi aposentado precocemente por conta de um AVC que o deixou com a mão direita imobilizada.
De repente, decidiu que não mais perderia as tardes jogando damas com idosos na pracinha. Foi para o metrô e se encantou com a multidão. Entrava num vagão e descia quatro estações depois... Gostou e fez disso o seu passatempo diário. E adquiriu o hábito de perceber paqueradores; passageiros discretos; abusados, que se encostavam maliciosamente nas mulheres como quem não quer nada; ladrões, típicos por ficarem colados às bolsas dos passageiros ou espiando os desatentos que se esqueciam de vigiar mochilas e sacolas no chão... E, quando o marginal se preparava para saquear a vítima, ele entrava em ação tossindo na sua cara, fazendo-o desistir…
A vida de Saffira tinha um toque mais dramático. Aos 16 anos foi estuprada pelo padrasto. “Abrindo-se uma pessoa pode-se encontrar as mais tristes paisagens...” Assim ela se sentia em relação à violência sofrida. Saiu de casa e trabalhou como doméstica em várias casas. Concluiu o segundo grau, à noite, pelo Supletivo e passou a viver com a avó, que era paupérrima. Logo, em seguida, para evitar despesas foi para casa de uma tia, mas por pouco tempo. Num emprego pouco melhor, no comércio, conseguiu alugar um quartinho mais que modesto e até prestou vestibular para Matemática, que ela adorava... Mas não se classificou para a faculdade pública…
Teve apenas dois namorados e passou a morar com o segundo, por quem se apaixonou. Mas tudo acabou quando ele morreu prensado pela porta defeituosa de
um vagão do metrô. “A sensação desta morte sofrida se confunde, até hoje, com uma imagem que vai permanecer para sempre”, desabafa. Desde então ela nunca mais teve qualquer relacionamento amoroso... E, após o trabalho, começou a circular pelos vagões do metrô até às 22 horas e ia dormir. Para Saffira havia pouca ou nenhuma esperança por dias melhores.
“A VIDA É COMO AS RODAS DE UM TREM.
NUNCA ESTÁ NO MESMO LUGAR”
Descobriram-se ao descer e subir dos vagões inúmeras vezes. Apresentaram-se e entraram na lanchonete de uma estação. Solicitaram seus lanches: Saffira pediu chá preto com um pastel de cenoura, que não havia. Tomou apenas o chá. Ricardo pediu uma latinha de cerveja. Ela se definiu como uma “incompreendida”... E andar pelos vagões se tornou uma experiência muito divertida. Além do que – observava – “tenho salvado muitas bolsas...”.
Ambos retomaram o trem. E assistiram a uma cena inusitada: um casal discutia ferozmente, chegando a trocar tapas, quando o rapaz começou a rasgar as folhas do que parecia ser um diário. Uma das folhas caiu aos pés de Saffira, que a recolheu. O papel dizia, em letras trêmulas, “preciso deixar-te. Não dá mais para aguentar...”. Tal leitura indicou o porquê da briga. Saffira adiantou-se para intervir. Em seguida, chegou Ricardo. Eles argumentaram que a discussão era inútil, pois já haviam lido uma das razões da moça... Eu tenho experiência – arrematou Ricardo – “vivi quatro anos com uma mulher que eu amava e, de repente, tudo se desfez. A solução foi a separação, sem atritos...” Saffira foi mais direta e acrescentou que “quando um casal chega a este nível, incluindo tapas, é inevitável a separação.”
A reação não foi das melhores. O rapaz, apontando o dedo para o rosto de Saffira, disse raivosamente, antes de pular do vagão: “vai-te fuder!” deixando a mulher dele chorando. Pronto! Descobrimos outro “serviço de trem”... Vamos prestar solidariedade à moça – disse Saffira. Ricardo concordou. A jovem se chamava Angélica e devia ter uns 21 anos. Perguntaram na aonde desceria? A resposta os deixou perplexos. “Vou ficar andando neste vagão até às 23 horas, quando o Mário retorna para casa; pois não tenho a chave do apartamento.” Mas, então, você vai voltar para ele? – perguntou Saffira. Sim, vou. Não tenho alternativa, respondeu
Angélica. Saffira sussurrou para Ricardo, em tom de brincadeira: “que tal a moça juntar-se a nós nas trocas de vagões?” Ricardo deu um sorrisinho maroto e disse pra Angélica sentar-se, recompor-se e esperar. E assim foi. Às 23 horas, ela partiu para o seu drama rotineiro...
Ambos eram fãs de novela. “Algumas” com a qualidade do bom cinema, concordavam... Falando em cinema, ela diz adorar o cinema americano, especialmente as comédias leves. E achava interessante sempre haver atores negros nos filmes. Mas admirava também o cinema brasileiro e citava “Tropa de Elite”, que assistiu duas vezes. Ricardo elogiava o cinema francês, principalmente o “antigo” (o qual Saffira, pela idade, não conhecera). Gostava das boas histórias, com uma pitada realista, das belas trilhas sonoras, da inesquecível Catherine Deneuve, Alain Delon... E aproveita para lembrar que Saffira tem “o narizinho deliciosamente empinado como a atriz francesa Juliette Binoche”. Pelo que, ela graciosamente agradece.
Ricardo aproveita a observação de Saffira sobre os negros no cinema americano e salienta que “as novelas e filmes brasileiros se parecem com produções dinamarquesas. Todos os atores são brancos, com raras exceções. Especialmente nas novelas...” Ao que Saffira admite que “nunca tinha pensado nisso, mas é uma verdade escandalosa.” Saffira observa, ainda, que no shopping onde trabalha raramente vê uma atendente negra nas lojas. No seu trabalho mesmo não há nenhuma. Ricardo lembra com amargura que um grande colega seu, negro, certamente um dos mais abnegados e inteligentes da empresa em que trabalhava nunca foi promovido. E quando “eu deixei a chefia devido ao derrame cerebral, a vaga que deveria ser dele foi dada a um funcionário reconhecidamente menos qualificado...” E concluiu: “E mais da metade da população brasileira é de negros e mulatos...”
Nunca haviam ido à última estação. “Sonho que na última estação vou encontrar lindos pássaros e anjos. E, assim, acabar com a minha tristeza”, desabafa Saffira. Ricardo, que era ateu (ou à toa, como brincava) disse que pássaros ela poderia encontrar, mas anjos nunca. Ela era levemente católica e não gostou do comentário. Mas não chegaram a discutir, pois ambos não davam muita atenção para religião. “Depois da morte do meu namorado sou menos que um fragmento do
que já fui...” – assim ela resumia o que sentia. Ricardo desculpou-se e, com um olhar meigo, diz que "a dor nunca se separa da memória..."
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CHICO BUARQUE ESQUECEU
DAS "TENEBROSAS TRANSAÇÕES"
(texto de Ronaldo Soares de Oliveira, que adora o Chico e pede-lhe desculpas se o ofendeu.)
Para o excelente Chico Buarque que não se exprime só para ficar mais rico.
Que não compõe canções com subalternos fins, para atrair atrizes; para papar
manequins; que não importa carro pra sair na Caras; que não pega seu fã pra
Zé Mané; que arriscou o couro sob a ditadura; que da canção social não foge;
não se exime; que muito embora tenha uma cara de bobo, não é nenhum
boneco fabricado na Globo.
Quando os Renans proliferam, quando os Cunhas chovem, mirar-se no exemplo
de Chico era melhor pros jovens. Pena que a juventude em boa parte esteja
tropeçando na boca, rezando noutra igreja como que a confirmar a visão curta
de fã, sentadinho no colo do sinistro Tio Sam. É difícil lutar contra tanta
desatenção; contra tanta renúncia. Contra todo um sistema colonial e perverso,
contra todas as forças do infindo universo.
Como arrostar o lixo que nos chega do frio? Sem vestígios sequer de uma virtude-
brio? Bem ou mal, o Vietnam com todo o seu atraso, nos ensinou o que
se faz no caso. Mas será que aprendemos? Levantamos a saia quando o gringo
safado invadir nossas praias? É de temer que um dia isso acabe numa zona;
gerenciada, quem sabe, por madame Madonna.
Voltando ao grande Chico: é bonita a gratidão ao PT que um dia plasmou as
idéias do poeta; mas quando Lula e o partido tornaram-se corruptos e foi virando...
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VIAGEM NO TEMPO PARA
ENCONTRAR CABRAL texto registrado por Ronaldo S. Oliveira
E eles foram encolhendo... encolhendo.... encolhendo...
Era um cientista de 35 anos. Obsessivo no que fazia, decidiu que faria uma "Máquina do Tempo". Trabalhou inúmeras noites e madrugadas. De dia cumpria 12 horas no emprego para compensar as folgas dedicadas ao seu projeto. Não se permitia tempo para comer adequadamente... Estava magérrimo. Depois de anos, numa manhã cinzenta ele concluiu a Máquina. Estava pronta. Reluzindo! Deixou um recado gravado anunciando o fato num canto do laboratório, pegou uma quantidade de comida e refresco desidratados e regulou a máquina para o século
16. Justo para o dia da chegada de Cabral no Brasil, pois era fascinado pelo feito do navegante português...A máquina produziu um barulho ensurdecedor e sumiu rumo ao desconhecido. Após uma semana, pousou serenamente. Algo deve ter dado errado, pois estava cercado de carros e edifícios. Do litoral cheio de índios da Era Cabralina, nada!
Camuflou a sua máquina e resolveu perambular pela cidade. De repente, viu- se defronte a uma vitrine espelhada e surpreendeu-se. Havia adquirido uma aparência muito, muito mais jovem. Aproximou-se de uma banca de jornal e leu numa capa a seguinte data: 20/10/1914! Viajara cem anos... E rejuvenescera! Murmurou decepcionado: "Que droga! Estou longe do Descobrimento do Brasil." E logo conformou-se, pois a sua aparência perdera, pelo menos, uns 10 anos.
Perambulou pela cidade e, vaidoso, notou que chamava a atenção das mulheres... E acabou parando, aleatoriamente, numa fila de bonde. Meio sem jeito, perguntou à jovem à sua frente que idade ela daria pra ele? Vinte e cinco anos,
respondeu a moça com naturalidade. O seu corpo estremeceu e ele observou que o leve grisalho do cabelo desaparecera. E encorajado pela transformação, arriscou um convite: "Podemos passear um pouco?" Ela concordou e eles passearam pela cidade e foram parar num bar. No momento de pagar a conta, surpreendeu-se com a recusa do garçom em aceitar suas notas. Notas de um século depois... Dinheiro totalmente desconhecido.
A jovem pagou a conta e ele foi explicando o inexplicável para uma incrédula ouvinte. Como argumento definitivo, levou-a até a Máquina do Tempo convencendo- a em parte. Ela, numa atitude ousada, pediu para ele acionar a máquina, "para dar uma voltinha..." Como ele tinha esperança de presenciar a aventura Cabralina, não pensou duas vezes e, desta vez, ajustando os comandos e relógios minuciosamente, deu a partida.
E algumas semanas depois, a uma velocidade espantosa, a nave pousou a 250 metros das caravelas. A Máquina do Tempo e as roupas do casal de tripulantes encantaram os índios e maravilharam os ...
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PONTEIROS
PONTEIROS
AS MENINAS
DE CABELOS VERDES
A LONGA NOITE
DOS MENDIGOS
UM HOMEM SÓ,
2 TERNOS E
2 TERNOS E
2 CAMISAS
IMPECÁVEIS...
SULCOS & RUGAS

A VIDA NÃO VALE A PENA...
UM HOMEM PRECAVIDO.
MAS NEM TANTO...

FRANJINHA
Iara tinha a mesma simpatia da atriz Anne Hathaway
UM OLHAR PROFUNDO
ZELANDO PELO PLANETA
PALAVRAS
CACHAÇA DO BOLO
NÃO CONFUNDIR COM A "CEREJA DO BOLO..."
( PAPO RACISMO )
Texto embriagado de indignação de Ronaldo S. Oliveira
Pergunto: gordo ou negro não bebem cerveja? Claro que bebem. E muito. Agora, encontrem estas duas personagens, nitidamente, nos anúncios de cerveja na TV? Você vai encontrar, sim, DESFOCADAMENTE e em menos de 1 segundo de duração. Só para constar... Mulheres negras e gordas, mesmo branca gorda, então, nem pensar! Para a publicidade ELAS NÃO EXISTEM! Isso é RACISMO. Não tem outra conceituação! Será que esta atitude parte da cabeça dos fabricantes de cerveja ou dos publicitários? Seja lá de quem for, pau neles!
VAMOS DAR NOME AOS BOIS
A SKOL, nos seus filmes, negros, negras, gordos e gordas raramente aparecem.
A BRAHMA mostra, desfocadamente, uma mão segurando um copo, uma cabeça balançando ou mulatas seminuas sambando, aí, com visibilidade. E no seu elenco tem astros negros como Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz.Já a "nossa" POLAR (que é daqui!) os anúncios parecem ter sido feitos na Noruega...Na KAISER, a aparição é mínima. O negro passa tão rápido que é difícil notar! Até um esquimó aparece, nitidamente, como o "garoto-propaganda" Kawaka...

A HEINEKEM produz filmes com grande sofisticação mas com um único e solitário negro (não desfocado)...
A ANTARCTICA repete muito a imagem machista da "mulher gostosa"... Associando a cerveja à uma "loura sexi", despudoradamente sexi...
A SCHIN, que perdeu o ZECA PAGODINHO para a BRAHMA, desconhece GORDOS e NEGROS... Pelo menos com nitidez...
DEVASSA-NDO CONCEITOS
"É PELO CORPO QUE SE CONHECE A VERDADEIRA MULHER NEGRA". É assim que a publicidade da DEVASSA tentou promover a sua cerveja preta, a Tropical Black, seguida de uma ilustração hipersexualizada. A frase, sexista e racista, segundo o Movimento Negro e Organizações Feministas, levou o Ministério da Justiça a processar administrativamente a Brasil Kirin, do Grupo Schincariol. Pergunta-se se a mulher negra "normal", gorda ou magra, não supersexualizada deixaria de ser verdadeira?!
Segundo o CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), "é direito básico do consumidor a proteção contra a propaganda abusiva. Na sociedade de consumo, a publicidade é um indicativo do padrão ético adotado pelas empresas para oferta de produtos e serviços. Não se pode admitir que para vender alguma coisa, sejam utilizadas mensagens discriminatórias que reforcem estereótipos de gênero e étnico-raciais e que aprofundem as desigualdades".
Pelas suas normas "a propaganda de bebidas alcóolicas não pode ter como principal apelo a sensualidade, no que os fabricantes de cerveja exploram o corpo da mulher como "símbolo", "a mulher-ideal", "a mulher-ilusão", "a mulher-hipersensualizada" a serviço dos desejos masculinos, cujos efeitos pedagógicos são altamente negativos para garotos e garotas reduzindo à coisificação da mulher. Especialmente para jovens em construção de uma visão crítica onde a sua capacidade de fazer escolhas é facilmente seduzível pela propaganda". E pedir uma Devassa - assegura a publicidade - é "pedir a dose certa de segundas intenções".
Já que a lei demora uma eternidade para disciplinar esta terra de ninguém, este blog não dará trégua pra eles!


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